Ursula K. Le Guin e o conceito de tecnologia além do hi-tech
Em ensaio de 2005, a escritora Ursula K. Le Guin desmistificou o conceito de tecnologia, resgatando objetos cotidianos e a ficção científica.
Startup Endeavor Optical Networks surge do stealth para conectar data centers globais via satélites laser de alta capacidade.
A startup Endeavor Optical Networks (EON) emergiu do modo stealth com a captação de US$ 10,75 milhões em uma rodada de investimento seed liderada pelos fundos General Catalyst e Andreessen Horowitz. Fundada em maio de 2026 pelo CEO Charlie Horowitz e pelo CTO Tyler Presser, a empresa propõe criar uma rede orbital baseada em comunicação óptica laser para interconectar grandes data centers ao redor do globo, oferecendo uma alternância direta à infraestrutura física de cabos submarinos de fibra óptica.

O gargalo da infraestrutura mundial de internet reside na fragilidade das conexões oceânicas. Atualmente, o tráfego internacional de dados depende de uma rede complexa e vulnerável de cabos ópticos instalados no leito marinho, cujas manutenções e reparos exigem navios especializados e operações demoradas. Embora o tráfego por radiofrequência seja amplamente utilizado em satélites comerciais, a transmissão por ondas de rádio não entrega a largura de banda exigida por instâncias de inteligência artificial e hyperscalers, que demandam taxas de transferência na casa dos terabits por segundo.
Enquanto a infraestrutura submarina moderna atinge capacidades de 200 terabits por segundo (Tbps) ou mais, as tecnologias de comunicação por satélite mais robustas do mercado continuam incapazes de suportar essa escala de tráfego. Demonstradores recentes de links ópticos no espaço, realizados por organizações como a NASA e empresas privadas como York, Kepler e Cailabs, alcançaram taxas na faixa de 2,5 Gbps. A meta inicial da EON é saltar para uma taxa de transferência de 2,4 Tbps por link óptico dedicado.
A depender de conexões físicas oceânicas, operadores de redes globais enfrentam riscos constantes de interrupção causados por âncoras de navios, atividades sísmicas e sabotagens territoriais. A substituição parcial ou redundância dessas rotas terrestres e marítimas por satélites exige superar severas barreiras da física atmosférica. A luz do laser, ao atravessar a atmosfera terrestre, sofre refração e atenuação causadas por variações de densidade do ar, além do bloqueio físico provocado pela cobertura de nuvens.
Para contornar o problema da refração atmosférica, a EON planeja implementar uma frota inicial de aproximadamente 20 satélites posicionados estratégias de órbita para fornecer cobertura contínua de 24 horas entre continentes. A topologia da rede incluirá estações terrestres instaladas em regiões selecionadas com base em modelos preditivos de clima. Caso uma estação receptora enfrente condições de nebulosidade severa, o sinal óptico será redirecionado em tempo real para instalações alternativas de apoio, mantendo a conexão dos data centers locais e redes de entrega de conteúdo (CDNs).
A escolha das rotas prioritárias da EON foca nos trechos de alta latência ou de elevado custo operacional para os grandes provedores de nuvem. Conexões de longa distância entre a França e a Austrália, ou trajetos sem infraestrutura submarina madura, como a travessia entre a América do Sul e o continente africano, constituem os alvos primários de comercialização da startup. A empresa venderá capacidade dedicada de banda, garantindo controle total do trânsito de dados aos clientes institucionais.
O plano de investimento da rodada inicial prevê a construção de um laboratório de óptica avançada, a contratação de engenheiros especializados e a execução de testes em solo antes do lançamento do primeiro satélite demonstrador, previsto para o final de 2027. De acordo com o CEO Charlie Horowitz, a expectativa é que este protótipo orbital entregue uma taxa de download óptico entre 800 Gbps e 1 Tbps, estabelecendo um recorde para sistemas ópticos de comunicação no espaço.
Não nos preocupamos com a demanda. A questão central é saber se é possível colocar essa infraestrutura no espaço dentro do cronograma estabelecido.
A construção do hardware orbital da EON apoia-se no desacoplamento entre os sistemas de comunicação e a plataforma do satélite. Em vez de fabricar o satélite completo do zero, a empresa focará o desenvolvimento nos terminais de comunicação óptica (OCTs) e nos sistemas de regulação micrométrica de direcionamento, conhecidos como gimbals, responsáveis por manter o feixe de laser apontado com precisão para as estações terrestres em movimento. Os chassis e sistemas de propulsão (busses) serão comprados de fornecedores comerciais, como a fabricante Apex Space.
O histórico executivo de Charlie Horowitz inclui a passagem pela própria Apex Space, onde atuou como chefe de gabinete e diretor de projetos especiais sob a liderança do CEO Ian Cinnamon. Essa bagagem no setor espacial comercial orientou a decisão da EON de evitar a fabricação de componentes não prioritários, concentrando os aportes financeiros na engenharia óptica de precisão necessária para estabilizar o sinal laser em órbita baixa.
A equipe técnica reunida pela EON inclui o cofundador e CTO Tyler Presser, doutor em engenharia astronáutica com experiência no planejamento de missões para a NASA. O quadro executivo também conta com Michael David Francois, ex-executivo do Google focado na infraestrutura de redes globais, e Wesley Baxter, engenheiro óptico com passagem recente pelo projeto de satélites LEO da Amazon.
A aposta da investidora Jeannette zu Fürstenberg, da General Catalyst, baseia-se na interseção entre os avanços de modelos de inteligência artificial e a necessidade de resiliência nas redes de comunicação globais. Conforme a demanda por processamento distribuído cresce, a dependência exclusiva de rotas de cabos de fibra terrestre cria pontos isolados de falha para os ecossistemas digitais multinacionais.
No cenário competitivo de conectividade espacial de alta capacidade, a EON enfrenta a concorrência do projeto TeraWave, anunciado pela empresa de exploração espacial Blue Origin, de Jeff Bezos. O plano da TeraWave prevê uma mega-constelação de 5.048 satélites voltada a oferecer conexões de até 6 Tbps para grandes clientes corporativos. No entanto, a escala massiva do projeto da Blue Origin exige prazos longos de homologação e lançamento, enquanto a frota reduzida de 20 satélites da EON busca uma entrada mais rápida em operação comercial.
A viabilidade de infraestruturas ópticas orbitais para data centers permanece sob avaliação rigorosa de analistas do setor de telecomunicações. De acordo com Caleb Henry, diretor de pesquisa da consultoria Quilty Space, os centros de processamento de dados exigem padrões extremamente elevados de redundância e continuidade de serviço. Embora a comunicação via satélite esteja migrando de uma opção de última instância para uma infraestrutura de alta largura de banda, a implementação de sistemas dedicados a data centers apresenta complexidades técnicas superiores às estimativas iniciais do mercado.
Temos uma regra fundamental na empresa: nada de problemas de física não resolvidos. Existe um mercado real e urgente hoje que podemos atender imediatamente.
A diretriz operacional declarada por Charlie Horowitz afasta a empresa de projetos conceituais mais complexos, como a instalação de data centers inteiros no espaço. O foco estratégico está concentrado na movimentação terrestre e intercontinental de dados, um gargalo que se intensifica com a expansão global das arquiteturas de nuvem e o aumento do tráfego gerado por modelos generativos de inteligência artificial.
Para o ecossistema brasileiro de tecnologia e infraestrutura de rede, o desenvolvimento de enlaces ópticos orbitais representa uma alternativa direta para rotas de cabos que conectam o país ao Norte Global e à África. A redução de custos de transmissão e o aumento da redundância internacional tendem a impactar os pontos de troca de tráfego locais, otimizando o acesso de data centers instalados no Brasil às redes de alta velocidade do exterior sem a necessidade de expansões de novas redes ópticas submarinas.
A execução dos planos da EON dependerá da entrega dos marcos técnicos prometidos para 2027. A validação da tecnologia de alinhamento por gimbals e a compensação efetiva das interferências atmosféricas ditarão o ritmo de adoção comercial por parte de hyperscalers e laboratórios de IA. Se comprovada em órbita, a tecnologia óptica a laser pode redefinir a topologia física da internet global, descentralizando as conexões internacionais que hoje dependem exclusivamente do leito dos oceanos.
Em ensaio de 2005, a escritora Ursula K. Le Guin desmistificou o conceito de tecnologia, resgatando objetos cotidianos e a ficção científica.
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