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IPOs de energia sofrem correções na bolsa em meio ao ceticismo com IA

Investidores de energia voltados ao boom de IA enfrentam volatilidade, com quase dois terços das estreantes operando abaixo do preço de oferta inicial.

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Reatores e usinas de energia modernos projetados para fornecer eletricidade a data centers
Reatores e usinas de energia modernos projetados para fornecer eletricidade a data centers

Em maio, a startup de energia geotérmica Fervo, sob o comando do CEO Tim Latimer, captou mais de $2 bilhões ao estrear no mercado público de ações, consolidando uma tendência global de investidores que buscam no setor de infraestrutura as bases para lucrar com a expansão da inteligência artificial. Essa corrida de capital em direção ao segmento de energia ocorre em meio a um crescente nervonismo entre os gestores de fundos sobre a real capacidade das chamadas hyperscalers — as gigantes de tecnologia que lideram o desenvolvimento de IA — de transformarem seus investimentos multibilionários em lucros consistentes de curto e médio prazo, conforme indicam análises publicadas pelo Financial Times.

Reatores e usinas de energia modernos projetados para fornecer eletricidade a data centers
Foto: Ars Technica

No entanto, apesar da demanda sem precedentes por eletricidade para alimentar sistemas de computação de alta performance e do forte interesse inicial nessas novas listagens, o mercado acionário vem aplicando uma rápida correção de rota. Segundo dados consolidados pela plataforma Dealogic, quase dois terços das empresas de energia que abriram capital nas bolsas norte-americanas entre o ano passado e este ano estão sendo negociadas atualmente abaixo do seu preço de oferta inicial (IPO). Esse indicador de retração revela-se dramaticamente superior ao desempenho geral do mercado de capitais, onde menos de 40% das listagens de todos os setores econômicos encontram-se atualmente desvalorizadas ou abaixo da linha d'água em relação ao seu preço de estreia.

Um exemplo expressivo dessa volatilidade extrema é a X-energy, empresa focada no desenvolvimento de reatores nucleares modulares de pequena escala que conta com o apoio estratégico e financeiro da gigante de e-commerce e nuvem Amazon. A companhia estreou na bolsa de valores em abril e, desde então, sofreu uma severa desvalorização de 33% em relação ao seu preço de lançamento original, que havia sido fixado em $23 por ação. O revés ilustra a rapidez com que investidores institucionais e de varejo estão comprando participações em companhias de forte apelo tecnológico durante o processo de flutuação para, logo em seguida, liquidarem suas posições no mercado secundário.

A febre dos IPOs

O interesse em massa por ativos de infraestrutura energética é uma resposta direta à saturação e ao ceticismo parcial que começam a cercar as ações das grandes corporações de tecnologia. Embora as ações das operadoras de nuvem e desenvolvedoras de semicondutores tenham atingido patamares recordes de valorização nos últimos anos, muitos operadores de mercado agora buscam alternativas de investimento em cadeias de suprimentos secundárias. Companhias como a Fervo, cuja abertura de capital movimentou mais de $2 bilhões em maio de acordo com dados de mercado compilados pela Bloomberg, representam uma rota de investimento focada na infraestrutura física que sustenta os data centers, permitindo que os investidores participem do crescimento da IA sem necessariamente se exporem à volatilidade direta das ações das empresas de software.

Para os executivos das empresas que buscam financiamento público, a transição para as bolsas de valores é vista como um passo crítico para viabilizar projetos de infraestrutura que exigem capital intensivo. O executivo-chefe da Fervo, Tim Latimer, argumenta que a listagem pública em maio foi considerada pela empresa e por seus principais investidores como o mecanismo mais eficiente para acelerar o ritmo de crescimento corporativo e expandir seus projetos de energia limpa. No entanto, a necessidade de captar recursos de forma ágil para acompanhar o ritmo acelerado de expansão das redes de dados expõe essas empresas de capital intensivo a oscilações abruptas de liquidez, geradas por um mercado acionário cada vez mais impaciente e focado em retornos rápidos.

O contraste entre o otimismo das projeções de demanda de energia e a realidade das telas de negociação financeira reflete uma desconexão preocupante. As estatísticas da Dealogic apontam que cerca de 67% das companhias elétricas e de tecnologia de energia limpa que realizaram ofertas públicas nos últimos 24 meses acumulam perdas severas frente aos seus valores de emissão. Esse dado evidencia que, enquanto a demanda física por energia elétrica para processamento digital continua a crescer de forma exponencial, a capacidade do mercado de capitais de absorver e precificar corretamente esses ativos de longo prazo está seriamente comprometida por uma dinâmica de especulação que penaliza empresas em estágio inicial de desenvolvimento.

Choque nas avaliações

O desempenho operacional de companhias que exploram tecnologias inovadoras ou fontes de transição energética deixa claro que o mercado de capitais está reavaliando os valuations de forma drástica. Além da queda expressiva de 33% sobre os $23 iniciais acumulada pela X-energy desde sua estreia em abril, outras empresas que adotam abordagens mais tradicionais de geração também enfrentam forte resistência dos investidores. É o caso da ERock, fabricante especializada em geradores a gás voltados para o fornecimento rápido de energia sob demanda, cujas ações acumulam uma desvalorização de 42% desde a conclusão de sua oferta pública inicial de ações realizada em junho.

Os problemas de desvalorização acentuada estendem-se também às empresas focadas na integração de sistemas de energia para data centers de inteligência artificial. A Fermi, companhia que desenvolve soluções de engenharia elétrica integradas para infraestrutura de computação de alta densidade, viu seu valor de mercado despencar impressionantes 68% desde sua estreia em bolsa de valores em setembro. A derrocada das ações da Fermi acende um sinal de alerta para a indústria de infraestrutura digital, indicando que soluções de engenharia que prometiam resolver de forma imediata o fornecimento de eletricidade para servidores de IA estão enfrentando dificuldades extremas para demonstrar rentabilidade e estabilidade operacional para seus acionistas.

Empreendimentos que propõem inovações de engenharia ainda mais extremas e não comprovadas comercialmente sofrem sanções ainda maiores das mesas de negociação. A startup nuclear Deep Fission, que desenvolve um projeto inovador para enterrar reatores nucleares de fissão em buracos perfurados a uma milha de profundidade no subsolo, conseguiu captar apenas $40 milhões em sua rodada de capitalização realizada em junho. Esse montante representou um corte drástico de 73% em relação à meta financeira originalmente estipulada pela administração da empresa, sendo que as ações da Deep Fission despencaram adicionais 33% em relação ao preço registrado em sua estreia no mercado de capitais de Wall Street.

Estratégias de investimento

Analistas e operadores apontam que a alta volatilidade dessas ações está intrinsecamente ligada à proliferação de táticas de negociação de curto prazo conduzidas por fundos especulativos. Brian Kessens, gestor sênior de portfólio da firma de investimentos especializada em energia Tortoise Capital, explica que muitos traders de curto prazo estão entrando nas ofertas públicas iniciais dessas empresas puramente para auferir lucros imediatos com a flutuação inicial e, logo em seguida, vender rapidamente suas posições. Segundo Kessens, essa prática de comprar e liquidar rapidamente para depois se mover em direção ao próximo lançamento disponível impede que empresas inovadoras como a X-energy ou a ERock formem uma base estável de acionistas dispostos a apoiar o desenvolvimento tecnológico de longo prazo.

Para conter essa tendência nociva que desestabiliza a curva de preço das ações, os bancos de investimento que estruturam as operações de mercado precisam adotar posturas significativamente mais conservadoras. Brian Kessens, da Tortoise Capital, defende que os intermediários financeiros precisam exercer maior responsabilidade ao estabelecer avaliações iniciais que sejam tecnicamente razoáveis e sustentáveis a longo prazo. O gestor ressalta que os bancos de Wall Street devem demonstrar muito mais cautela na distribuição de lotes de ações durante os processos de IPO, evitando vender participações significativas a investidores institucionais que demonstram alta probabilidade de realizar operações rápidas de revenda e liquidação forçada das ações.

A facilidade percebida de obter ganhos rápidos em mercados em expansão distorce os fundamentos de investimento no setor de infraestrutura. De acordo com a análise de Dendrinos, especialista do banco canadense RBC, a forte convicção de que uma abertura de capital relacionada ao setor de inteligência artificial terá excelente desempenho inicial faz com que muitos investidores encarem o processo de alocação de ações como uma oportunidade sem risco. Nas palavras de Dendrinos:

Se você acha que um IPO vai correr muito bem, então, em certo sentido, trata-se de dinheiro grátis.

Essa mentalidade de arbitragem de curto prazo, de acordo com o analista do RBC, acaba inflacionando artificialmente as avaliações de mercado de empresas como a Fermi e a Deep Fission, preparando o terreno para as correções brutais que ocorrem logo após o início das negociações regulares.

Viabilidade comercial

Além dos gargalos de liquidez e da especulação no mercado secundário, as empresas que tentam abrir capital enfrentam dúvidas severas sobre a maturidade científica e comercial de seus produtos. Críticos e engenheiros do setor apontam que as abordagens propostas por empresas como a X-energy e a Deep Fission ainda carecem de comprovação empírica e viabilidade econômica para operação comercial contínua. A proposta da Deep Fission de operar sistemas de reatores nucleares de fissão em cavidades ultraprofundas subterrâneas, por exemplo, gera incertezas sobre a manutenção e a segurança a longo prazo, o que ajuda a explicar por que a captação de $40 milhões de junho ficou muito aquém das metas iniciais de captação da própria startup.

O comportamento seletivo dos investidores nas bolsas globais demonstra que o mercado está traçando uma linha clara de separação entre propostas teóricas e operações rentáveis estruturadas. Jeff Osborne, analista especializado em sustentabilidade e transição energética da consultoria financeira TD Cowen, destaca que as companhias de infraestrutura que estão registrando melhor desempenho financeiro pós-IPO são aquelas que apresentam operações reais, contratos consolidados e receitas consistentes em andamento. Em sua avaliação, Osborne aponta que os investidores profissionais estão abandonando propostas de alto risco de desenvolvimento tecnológico para focar em empresas estáveis:

As empresas que estão se saindo melhor têm um negócio real agora e representam menos um experimento científico.

Esse filtro pragmático aplicado pela TD Cowen explica a disparidade de caminhos entre as estreantes do setor energético. Enquanto a Fermi, com sua queda acumulada de 68%, e a Deep Fission, com desvalorização de 33% sobre uma captação reduzida, sofrem com a falta de confiança em seus modelos de entrega imediata, empresas com tecnologias consolidadas como a Fervo conseguem reter o interesse de investidores focados no longo prazo após levantarem mais de $2 bilhões em maio. A seletividade técnica e financeira do mercado impõe às startups que pretendem abrir capital no futuro a necessidade de demonstrar maturidade de engenharia e geração de caixa comprovada, reduzindo o espaço para promessas de novos reatores ou tecnologias de geração sem protótipos em escala real.

Impacto no Brasil

As turbulências observadas no mercado de capitais norte-americano em torno dos IPOs de energia trazem importantes lições estruturais para o Brasil, especialmente no momento em que o país tenta se consolidar como um polo global para a instalação de data centers sustentáveis. À medida que o governo brasileiro e empresas privadas buscam atrair investimentos estrangeiros de tecnologia com base em nossa matriz energética majoritariamente limpa, o levantamento da Dealogic indicando que quase dois terços das estreantes de energia estão abaixo do preço de oferta inicial serve como um forte elemento de cautela contra projeções excessivamente otimistas e captações mal estruturadas no mercado local de capitais.

O apelo de analistas como Brian Kessens, da Tortoise Capital, por valorações razoáveis ecoa diretamente nos planos de expansão de concessionárias de energia e desenvolvedores de novos projetos de infraestrutura elétrica no Brasil. Para evitar o fenômeno de fuga rápida de investidores que derrubou em 42% o valor de mercado da geradora térmica ERock desde junho, os emissores brasileiros de debentures e ações de infraestrutura precisarão desenhar operações focadas em investidores de perfil institucional de longo prazo, como fundos de pensão, estruturando contratos de fornecimento de energia de longo prazo que limitem a volatilidade das receitas operacionais frente aos riscos de oscilação do mercado de capitais.

Por fim, o ceticismo que atingiu projetos inovadores, como o desenvolvimento de reatores modulares de pequena escala da X-energy apoiada pela Amazon e os reatores subterrâneos da Deep Fission que captou apenas $40 milhões após um corte severo, reforça a tese de que o mercado nacional deve priorizar tecnologias maduras e de rápida implementação. No atual cenário macroeconômico global, as empresas brasileiras de energia que buscam capturar o fluxo de capital ligado à inteligência artificial devem focar seus esforços de expansão em fontes amplamente testadas — como a solar, eólica e biomassa —, minimizando os riscos tecnológicos que o mercado internacional passou a rejeitar sob o rótulo de experimentos científicos, e garantindo a solidez financeira necessária para sustentar a infraestrutura digital do país.

#IPOs#Inteligência Artificial#Energia#Mercado de Capitais#Infraestrutura
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