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John Gruber retrata matéria sobre rejeição na App Store após descobrir omissões de desenvolvedor sobre app de astrologia.
O respeitado blogueiro de tecnologia John Gruber publicou uma retratação completa no site Daring Fireball no dia 8 de agosto de 2026, marcando um evento histórico na trajetória da publicação. Trata-se da primeira retratação oficial feita por Gruber nos 24 anos de existência do veículo. O artigo original, intitulado "App Store Rejection of the Week: Dark Hours", criticava duramente a equipe de revisão da Apple por supostamente rejeitar um aplicativo de astronomia sob a falsa premissa de que o software continha conteúdo de astrologia. No entanto, após a apuração detalhada dos fatos, Gruber admitiu que a premissa central de seu texto estava inteiramente errada, levando-o a retirar o artigo do ar para preservar a credibilidade do seu trabalho.

Em vez de simplesmente apagar o registro da internet, Gruber optou por manter o acesso ao texto original em formatos Markdown e PDF, acompanhados de um prefácio que direciona os leitores para a retratação oficial. O endereço web (URL) da matéria original agora redireciona automaticamente para o post com os esclarecimentos. No texto de desculpas, o jornalista reconheceu que foi induzido ao erro por omissões e declarações imprecisas do desenvolvedor Terry Godier, mas assumiu a responsabilidade final pelo que publica em seu canal, estendendo um pedido de desculpas formal tanto aos seus leitores quanto aos revisores da App Store.
A relação profissional entre John Gruber e o desenvolvedor Terry Godier começou em fevereiro de 2026, quando o criador do Daring Fireball destacou o ensaio interativo "Phantom Obligation". A publicação apresentava o leitor de RSS chamado Current, um aplicativo independente exclusivo para o ecossistema iOS. O projeto de Godier ganhou visibilidade expressiva na comunidade de tecnologia, chegando a ser citado por David Pierce no portal The Verge como uma das poucas ferramentas capazes de prender usuários na plataforma da Apple e impedir a migração para o ecossistema Android.
A interação entre ambos se intensificou ao longo do primeiro semestre de 2026, estabelecendo um canal direto de comunicação via iMessage. Em março, Gruber voltou a divulgar o trabalho de Godier ao indicar o ensaio "The Last Quiet Thing" e, no mês seguinte em abril, compartilhou outra reflexão do desenvolvedor focada no sistema de avaliações por 5 estrelas da loja da Apple. Essa proximidade e a alta consideração pelo trabalho anterior de Godier criaram uma relação de confiança que acabou cegando o jornalista diante de incongruências fáticas na história apresentada pelo programador no caso mais recente.
A controvérsia teve início quando Terry Godier publicou em seu blog pessoal o artigo "Browsers Have Standards, the App Store Has Judgment". No texto original, o desenvolvedor afirmava que tentou submeter à loja da Apple um aplicativo baseado em seu site de astronomia Dark Hours, mas que a aplicação havia sido sumariamente rejeitada sob a alegação de ser um software de astrologia. Godier sustentava publicamente que o programa não possuía leitura de cartas de tarô, horóscopos ou qualquer elemento místico que justificasse tal classificação por parte da equipe de validação.
Entretanto, a apuração posterior revelou que a versão original submetida por Godier à App Store em janeiro de 2026 nem sequer se chamava Dark Hours, mas sim Asterly. O aplicativo rejeitado era, na realidade, inteiramente dedicado à astrologia e contava expressamente com recursos místicos, incluindo uma função de "carta de Tarô do dia". Quando o App Review Board ratificou a rejeição em abril de 2026, a decisão da Apple estava plenamente correta com base nas diretrizes da loja, tornando indefensável a acusação de erro por parte dos revisores.
A verdade é que o aplicativo, conforme submetido originalmente por Godier à App Store sob o nome 'Asterly', era inteiramente dedicado à astrologia, não à astronomia, e de fato incluía um recurso de 'carta de Tarô do dia', entre outras besteiras ocultistas.
A situação se agravou pelo fato de Gruber ter enviado o rascunho de seu artigo a Godier pelo iMessage antes de publicar a crítica à Apple. O desenvolvedor leu o rascunho, não fez alertas sobre a presença prévia de conteúdo ocultista no projeto e apenas agradeceu pela visibilidade dada ao caso. Pouco depois da repercussão do texto de Gruber e de sua publicação no agregador Hacker News, Godier alterou o post original em seu site às 23:00 (horário do leste dos EUA) do dia 8 de agosto, admitindo em nota que a versão inicial continha astrologia e que a Apple havia entrado em contato para esclarecer que não tinha recebido o build atualizado do app.
Paralelamente às deturpações sobre a aprovação do app, a transição do projeto para a web desencadeou outro conflito ético e técnico no ecossistema de software livre. Após a rejeição do app Asterly na App Store, Godier adaptou a parte de astronomia para um site sob o domínio darkhours.io, utilizando o nome "Dark Hours". No entanto, a iniciativa colidiu diretamente com um projeto de código aberto existente desde antes, criado pelo desenvolvedor Miguel Beher no GitHub sob o nome DarkHours (sem espaço).
O projeto open source de Beher, hospedado no domínio darkhours.app, consiste em uma ferramenta gratuita para planejamento de astrofotografia e observação de céu noturno. Durante um debate na rede social Bluesky, Beher confrontou Godier ao notar que o site recém-lançado pelo criador de Asterly não apenas usava um nome idêntico, mas também exibia exatamente o mesmo erro de código (bug) presente na sua aplicação aberta: um redirecionamento incorreto que levava usuários para locais aleatórios no México. Diante do desmascaramento público, Godier retirou sua aplicação web do ar e configurou o domínio darkhours.io para redirecionar diretamente para a aplicação de Beher.
A análise do caso trouxe à tona o debate sobre os critérios de moderação da Apple e a aplicação da Guideline 4.3(b) das diretrizes da App Store. O trecho regulatório da empresa especifica claramente que certas categorias saturadas de softwares — como aplicativos de encontros, lanterna, efeitos sonoros, papéis de parede, temporizadores simples e adivinhação/astrologia — não são aceitas a menos que ofereçam uma experiência significativamente diferenciada ou aprimorada em relação ao catálogo existente.
O regulamento da Apple busca conter a proliferação de softwares de baixa qualidade ou focados em práticas duvidosas que tentam monetizar em cima de públicos crédulos. Ao contrário do que foi sugerido no texto inicial de Gruber, a equipe da App Store não agiu de forma analfabeta ou arbitrária ao barrar o Asterly. Os avaliadores aplicaram de forma técnica o trecho da Guideline 4.3(b) referente a aplicativos de adivinhação, já que o produto submetido em janeiro continha elementos explícitos de tarô e misticismo.
A retratação total do Daring Fireball expõe a fragilidade de verificações jornalísticas que dependem exclusivamente da palavra de desenvolvedores em disputas contra grandes corporações como a Apple. O próprio John Gruber destacou a ironia do desfecho, lembrando que na conclusão de seu texto original havia afirmado que em um sistema funcional erros evidentes devem ser corrigidos imediatamente com um pedido de desculpas. Ao constatar que o erro havia sido cometido por ele próprio ao confiar em premissas falsas, o jornalista cumpriu sua própria exigência ética.
Obviamente fui eu quem se enganou. Este artigo é a minha correção, e peço desculpas a todos os que leram e acreditaram no meu post agora retratado, e aos revisores da App Store cuja competência eu difamei. Sinto muito por isso. Não acontecerá novamente.
O episódio serve como um importante estudo de caso para o ecossistema de desenvolvimento e para o jornalismo de tecnologia no Brasil e no mundo. A pressa em transformar denúncias contra grandes plataformas em bandeiras contra o monopólio da App Store pode fechar os olhos de analistas para manipulações narrativas de criadores individuais. No final, a integridade de um veículo se mede pela capacidade de reconhecer equívocos de forma transparente, disponibilizando o histórico completo das falhas e restabelecendo a verdade factual perante a comunidade técnica.
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